Um episódio raro e de grande repercussão marcou o noticiário político e jurídico nesta terça-feira (23). Ao vivo na GloboNews, a jornalista Malu Gaspar desmentiu publicamente uma nota oficial divulgada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, e expôs uma contradição que colocou o magistrado no centro de uma nova polêmica. O caso ganhou ainda mais relevância por envolver a própria Rede Globo, que, desta vez, manteve sua apuração jornalística mesmo diante da contestação direta de um dos ministros mais poderosos do país.
Tudo começou após a publicação de uma reportagem que revelava uma reunião entre Alexandre de Moraes e o presidente do Banco Central. A informação levantou suspeitas sobre a pauta do encontro, especialmente em razão das recentes controvérsias envolvendo o Banco Master e seus desdobramentos políticos e financeiros. Diante da repercussão negativa, Moraes divulgou uma nota oficial afirmando que a reunião não teve qualquer relação com o Banco Master, mas sim com discussões envolvendo a Lei Magnitsky, legislação internacional utilizada para aplicar sanções a autoridades acusadas de violações de direitos humanos.
A nota do ministro, no entanto, não encerrou o assunto. Pelo contrário: provocou uma reação incomum dentro da própria Globo. Diferentemente de episódios anteriores, em que a emissora recuou ou suavizou críticas após manifestações de autoridades do Judiciário, desta vez a empresa decidiu sustentar a informação publicada. E foi exatamente isso que ficou evidente durante a participação de Malu Gaspar ao vivo na GloboNews.
Durante o programa, a jornalista foi direta ao ponto e apresentou um dado cronológico que desmonta a versão apresentada por Moraes. Segundo ela, a reunião mencionada em sua reportagem ocorreu antes da sanção da Lei Magnitsky, o que tornaria impossível que o encontro tivesse como objetivo discutir a aplicação ou os efeitos da legislação. Com isso, Malu Gaspar afirmou, de forma clara, que a reunião citada na nota do ministro não é a mesma tratada na matéria jornalística.
O momento foi considerado inédito por analistas políticos e observadores da mídia. Não apenas pelo conteúdo da revelação, mas pelo contexto: uma jornalista da principal emissora do país contradizendo, ao vivo, um ministro do STF, sem que a direção do canal interferisse ou desautorizasse a apuração. Para muitos, trata-se de um sinal de mudança na postura editorial da Globo, que estaria disposta a enfrentar Moraes em um embate direto de narrativas.
A repercussão foi imediata nas redes sociais. Trechos do vídeo passaram a circular amplamente, com internautas destacando a firmeza da jornalista e a precisão dos argumentos apresentados. Críticos de Alexandre de Moraes viram no episódio a confirmação de que o ministro estaria tentando “recontar” os fatos para minimizar o desgaste público. Já apoiadores do magistrado acusaram a Globo de sensacionalismo e de inflar um episódio que, segundo eles, não teria maior relevância institucional.
Especialistas em direito constitucional também se manifestaram. Alguns apontaram que, embora reuniões entre autoridades não sejam, por si só, ilegais, a falta de clareza sobre o conteúdo e o contexto desses encontros pode gerar questionamentos legítimos da imprensa. Outros destacaram que a divulgação de uma nota com informações imprecisas ou ambíguas acaba ampliando a crise, em vez de solucioná-la.
Nos bastidores de Brasília, comenta-se que o clima entre parte da imprensa e o ministro Alexandre de Moraes está mais tenso do que nunca. O episódio reforça a percepção de que há uma disputa aberta de versões, em que cada detalhe — datas, agendas e justificativas — ganha peso político. O fato de a Globo não ter recuado pode indicar que novos desdobramentos ainda estão por vir.
Para o público, resta a sensação de estar diante de um confronto raro: de um lado, um ministro acostumado a impor sua narrativa com mão firme; do outro, uma grande emissora que, ao menos neste caso, decidiu sustentar sua reportagem até as últimas consequências. O vídeo exibido ao vivo na GloboNews tornou-se símbolo desse embate e deve continuar sendo citado como um marco na relação entre imprensa e Judiciário no Brasil.
Seja qual for o desfecho, o episódio já entrou para a lista de momentos emblemáticos do jornalismo político nacional, mostrando que, mesmo em tempos de forte pressão institucional, a disputa pela verdade factual ainda pode acontecer em rede nacional — e ao vivo.
Expectativa: Moraes emite nota afirmando que a reunião com Galípolo não era sobre o Master, mas sobre Magnitsky.
— Pri (@Pri_usabr1) December 23, 2025
Realidade: Malu Gaspar desmente tudo, mostrando que a reunião mencionada na nota do ministro não é a mesma, pois, a da sua matéria, ocorreu antes da sanção Magnitsky. pic.twitter.com/U1ZupYSPfy
