De acordo com o artigo, o jantar ocorreu no último trimestre do ano passado, em uma mansão avaliada em cerca de R$ 36 milhões, com 1,7 mil metros quadrados de área construída, localizada no Lago Sul, área nobre de Brasília. Vorcaro, que vivia o que o colunista descreveu como “tempos de muita liberdade”, costumava receber autoridades e políticos para encontros sociais no local. Em pelo menos uma dessas noites, Alexandre de Moraes esteve presente como convidado.
O detalhe que mais chama atenção — e que tem gerado indignação entre críticos do ministro — é o contexto em que o encontro ocorreu. À época, já estava em vigor um contrato de aproximadamente R$ 129 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do STF. Viviane, segundo o próprio texto de Lauro Jardim, não esteve presente no jantar, mas o fato de seu maior cliente ser justamente o anfitrião do evento levanta questionamentos inevitáveis.
Ainda conforme o relato, Moraes era o único ministro do Supremo entre cerca de vinte convidados, todos homens. O grupo incluía políticos considerados “poderosos” em Brasília, deputados, integrantes do Centrão e ex-ministros ligados ao governo Jair Bolsonaro. As conversas, segundo um dos participantes ouvido pelo colunista, teriam sido “amenas”, em clima informal e social, sem discussões ostensivas sobre negócios ou temas sensíveis envolvendo o Banco Master.
Apesar disso, o próprio Lauro Jardim reconhece que a situação, por si só, “soa inconveniente”. Mesmo que nenhum assunto relacionado ao banco ou a interesses jurídicos tenha sido tratado, a simples presença de um ministro da Suprema Corte em um jantar na casa do principal cliente do escritório de sua esposa é vista por muitos como, no mínimo, inadequada. Em um ambiente político já marcado por desconfiança e polarização, episódios como esse tendem a ampliar a percepção de promiscuidade entre poder político, econômico e judicial.
A revelação ocorre em um momento particularmente sensível para Alexandre de Moraes. O ministro tem sido alvo constante de críticas por parte de parlamentares, juristas e setores da sociedade civil, especialmente em razão de suas decisões à frente de inquéritos envolvendo liberdade de expressão, redes sociais e figuras da oposição. Qualquer fato novo que coloque em dúvida sua imparcialidade ganha proporções ainda maiores nesse cenário.
Nas redes sociais, a repercussão foi imediata. Usuários questionaram se a conduta do ministro estaria de acordo com os princípios de moralidade e impessoalidade que devem nortear a atuação de magistrados, sobretudo aqueles que ocupam cargos vitalícios e de enorme poder institucional. Parlamentares da oposição já falam, nos bastidores, em usar o episódio como mais um elemento para reforçar críticas à atuação do ministro e à falta de transparência no STF.
Especialistas em ética pública lembram que, embora não haja uma proibição explícita para que ministros participem de eventos sociais com empresários ou políticos, a recomendação geral é de extrema cautela. A credibilidade do Judiciário depende não apenas da legalidade dos atos, mas também da aparência de imparcialidade. Quando essa aparência é comprometida, mesmo que não exista ilegalidade comprovada, o dano institucional pode ser significativo.
Até o momento, Alexandre de Moraes não se pronunciou publicamente sobre o jantar. O Banco Master e Daniel Vorcaro também não divulgaram nota oficial esclarecendo os detalhes do encontro. O silêncio, no entanto, tende a alimentar ainda mais especulações e críticas, especialmente diante da gravidade das informações reveladas.
O episódio expõe, mais uma vez, a delicada relação entre o Judiciário e o poder econômico no Brasil. Em tempos de crise de confiança nas instituições, encontros privados como esse — ainda que descritos como meramente sociais — reforçam a cobrança por mais transparência, limites claros e responsabilidade por parte daqueles que ocupam os cargos mais altos da República.
