Simultaneamente Lula leva duas “pancadas” e crise se agrava

 

Simultaneamente, Lula Leva Duas “Pancadas” Políticas e Crise com o Congresso se Aprofunda

O clima em Brasília atingiu um novo nível de tensão nesta quarta-feira (26/11), quando o presidente Lula sofreu duas “pancadas” políticas simultâneas, ambas vindas dos mais altos postos do Congresso Nacional. Os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), simplesmente não compareceram à cerimônia de sanção do projeto que amplia a isenção do Imposto de Renda para salários de até R$ 5 mil — um dos eventos mais aguardados pelo governo, no qual Lula havia reservado espaço especial para discursos dos dois.

A solenidade, marcada para as 10h30 no Palácio do Planalto, deveria simbolizar sintonia entre Executivo e Legislativo em meio a pautas econômicas sensíveis. Em vez disso, tornou-se um recado direto de desacordo, desconfiança e ruptura institucional. A ausência simultânea dos presidentes das duas Casas foi interpretada por congressistas, ministros e assessores como um movimento deliberado de desgaste ao governo federal — e, pela primeira vez, tendo Lula como alvo explícito.


Ausências calculadas e impacto imediato

Fontes do Congresso revelam que tanto Alcolumbre quanto Motta já vinham indicando desconforto com a condução política do governo, mas a decisão de faltar ao evento foi vista como uma escalada incomum. A ausência pode até parecer um gesto simbólico, mas seu peso político é profundo: Lula esperava demonstrar união nacional em uma medida popular, que beneficia trabalhadores de média renda. A cerimônia acabou esvaziada e marcada mais pela crise do que pela conquista tributária.

A leitura imediata é de que a relação do governo com o Congresso vive seu pior momento desde o início do terceiro mandato de Lula. Se antes as críticas eram direcionadas aos líderes do PT no Senado e na Câmara — Jaques Wagner e Lindbergh Farias — agora o descontentamento mirou diretamente no presidente da República.


Alcolumbre e o “barril de pólvora” da indicação ao STF

A primeira “pancada” tem nome: Jorge Messias. A indicação do atual advogado-geral da União para a vaga no Supremo Tribunal Federal intensificou a crise entre Lula e Alcolumbre. O presidente do Senado havia se empenhado pessoalmente para que o escolhido fosse Rodrigo Pacheco (PSD-MG), seu aliado e ex-presidente da Casa. Lula optou por outro caminho, e o gesto foi interpretado por Alcolumbre como uma quebra de articulação e desprestígio.

Desde então, o presidente do Senado passou a demonstrar frieza em relação ao indicado, comportamento que se tornou explícito nesta semana. Na terça-feira (25), Alcolumbre marcou a sabatina de Messias para 10 de dezembro, um intervalo considerado curto para permitir que o governo organize apoios dentro da Casa. O gesto foi entendido como mais um sinal de resistência — ou até de sabotagem política.

A ausência de hoje reforça esse cenário: Alcolumbre deixou claro que não pretende ajudar o Planalto — e que Lula deverá enfrentar a votação praticamente sozinho.


Hugo Motta e a deterioração com a Câmara

A segunda “pancada” veio de Hugo Motta, cuja relação com o governo se desgasta mês após mês. Os atritos se acumulam desde debates sobre o aumento do IOF — proposta rejeitada pela Câmara sob sua condução. Mas foi durante a tramitação do polêmico projeto Antifacção, enviado pelo Executivo, que a crise ganhou corpo.

Motta nomeou para relator o deputado Guilherme Derrite (PP-SP), um opositor direto do governo. A escolha foi vista dentro do PT como provocação, e gerou forte reação do líder petista na Câmara, Lindbergh Farias. O episódio aprofundou as fissuras e amplificou o afastamento entre Motta e a cúpula petista.

Desde então, Motta acusa o PT de travar sua gestão de forma “desleal”, utilizando redes sociais para sugerir que ele age em favor de banqueiros e grandes empresários. O presidente da Câmara considera tais acusações injustas, mal-intencionadas e parte de um movimento para desgastá-lo politicamente.

Sua ausência hoje foi interpretada como um recado duro: Motta não pretende mais manter a aparência de harmonia institucional — e está disposto a confrontar o governo diretamente.


Crise política em momento decisivo

As “duas pancadas” políticas ocorreram em um momento que exige do governo extremo cuidado e articulação, especialmente diante de temas como a indicação ao STF, a pauta econômica de final de ano e o avanço de projetos estruturais no Congresso.

Para analistas, a situação cria um ambiente de desalinhamento grave entre Executivo e Legislativo, que pode prejudicar votações cruciais e minar decisões estratégicas do Planalto. O gesto de hoje expõe uma crise que já estava latente, mas que agora assume caráter aberto e de difícil reversão imediata.


Consequências e próximos passos

Dentro do governo, a avaliação é de que Lula precisará agir com rapidez para tentar estancar a sangria. A ausência de Alcolumbre e Motta não foi apenas um ato de desagrado: foi mensagem política direta, pública e constrangedora. O significado é claro — a base institucional de Lula está em xeque.

A crise se acentua, e a dúvida agora é se o presidente conseguirá reconstruir pontes com os líderes das Casas ou se enfrentará o restante do ano legislativo sob pressão, desgaste e isolamento.

A quarta-feira que deveria celebrar um avanço econômico para milhões de brasileiros transformou-se no retrato de um governo que enfrenta rupturas simultâneas — e que agora terá de lidar com as consequências.

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