Glauber Braga registra boletim de ocorrência contra Hugo Motta e acusa presidente da Câmara de abuso de autoridade; tensão política cresce em Brasília
A crise política que se arrasta nos bastidores do Congresso voltou a ganhar destaque nesta quarta-feira (10), após o deputado federal Glauber Braga (Psol-RJ) registrar um boletim de ocorrência contra o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). O parlamentar acusa o comandante da Casa de ter ordenado sua retirada da Mesa Diretora durante uma sessão tumultuada na noite de terça-feira, 9, gesto que Braga considera um abuso de autoridade e um reflexo de uma gestão “desequilibrada”.
O episódio ocorreu em meio a discussões acaloradas sobre a condução dos trabalhos legislativos, e a decisão de acionar a Polícia Legislativa para remover Glauber acendeu um novo alerta sobre o ambiente de tensão que domina Brasília. Segundo o relato do deputado, a polícia deixou claro que agia “sob ordem direta” da Presidência da Câmara — o que motivou sua ida à delegacia para formalizar a acusação.
BO contra a Presidência da Câmara: “A ordem partiu dele”
Ao sair da delegacia, Braga foi enfático ao apontar Hugo Motta como o responsável pela ação. “O boletim é contra a instituição, contra quem ordenou a ação da Polícia Legislativa, mais especificamente e melhor dizendo, contra o presidente da Câmara dos Deputados pela ordem que deu”, declarou o deputado.
Ele afirmou ainda que os agentes, ao chegarem para retirá-lo da Mesa Diretora, teriam repetido que a determinação era explícita: “A ordem é essa”. Para Glauber, a intervenção policial foi não apenas excessiva, mas parte de um comportamento autoritário que estaria se tornando recorrente na gestão de Motta.
Repercussão imediata e acusações de abuso
Braga também criticou o impacto simbólico e político da ação, alegando que o gesto dentro do plenário teria desencadeado um clima de hostilidade ainda maior nos corredores e diante da imprensa. Segundo ele, a autorização dada à Polícia Legislativa para atuar “de maneira tão incisiva” teria sido interpretada como um sinal de tolerância a práticas abusivas.
“Não precisa nem comentar. As ações do presidente da Câmara falam por si. Está evidente que o tipo de orientação dele foi de um desequilibrado”, disparou.
Aliados de Braga afirmam que o episódio representa um agravamento na postura da Mesa Diretora desde que Hugo Motta assumiu a presidência. Já interlocutores do Republicanos, por outro lado, sustentam que a Polícia Legislativa apenas cumpriu protocolos diante do comportamento considerado inadequado do deputado do Psol.
Braga relata dores físicas após a remoção
Além da denúncia política, o parlamentar relatou que sofreu dores no braço direito em decorrência da retirada forçada da Mesa Diretora. Segundo Braga, foi necessário recorrer a analgésicos e anti-inflamatórios para lidar com o desconforto após o episódio.
Embora não tenha detalhado se pretende acionar também a Câmara ou a Polícia Legislativa judicialmente por agressão física, Glauber deixou claro que está reunindo documentos e vídeos para sustentar seu caso.
Contexto de tensão: cassação à vista
O caso ocorre em um momento especialmente delicado para o deputado. Glauber Braga responde a um processo de cassação por quebra de decoro parlamentar, aberto após um episódio em 2024, no qual ele é acusado de ter empurrado e expulsado um integrante do Movimento Brasil Livre (MBL) dentro do Congresso Nacional.
O Conselho de Ética já aprovou a perda de mandato por 13 votos a 5, em abril. O processo segue tramitando e aguarda análise final do plenário, o que deixa Braga politicamente fragilizado e, segundo analistas, mais exposto a embates diretos com a Mesa Diretora.
Para aliados de Hugo Motta, a reação do deputado do Psol seria uma tentativa de criar um fato político para dificultar sua cassação. Já críticos da gestão do presidente da Câmara afirmam que o uso da Polícia Legislativa para retirar um parlamentar da Mesa é uma escalada perigosa e sem precedentes recentes.
Desdobramentos possíveis
A formalização do boletim de ocorrência adiciona um componente jurídico que pode aumentar a pressão dentro da Câmara. Embora não haja previsão de punição imediata ao presidente da Casa pela simples abertura do BO, o gesto tem potencial para:
- Acirrar ainda mais o clima entre esquerda e centro-direita, especialmente em votações importantes;
- Mobilizar bancadas oposicionistas, que podem usar o episódio para questionar a legitimidade da condução dos trabalhos;
- Influenciar o andamento do processo de cassação de Glauber, dependendo da repercussão pública.
Apesar das acusações diretas, até o momento Hugo Motta não se pronunciou detalhadamente sobre o caso. A tendência é que a Presidência da Câmara trate o episódio como uma tentativa de tumultuar o ambiente político.
Conclusão: Brasília segue em ebulição
O embate entre Glauber Braga e Hugo Motta evidencia novamente a instabilidade que permeia o Legislativo. A denúncia do deputado expõe fissuras profundas no funcionamento interno da Câmara e sinaliza que os próximos dias podem ser marcados por novos conflitos.
Com um processo de cassação em curso, acusações de abuso de autoridade e a Câmara dividida entre polarizações cada vez mais intensas, o episódio desta terça-feira não deve ser o último — e reforça que o clima político em Brasília segue altamente inflamável.
