Pela primeira vez Moraes demonstra “medo” e permanece inerte

Ao longo dos últimos anos, o ministro Alexandre de Moraes construiu a imagem de uma das figuras mais temidas do cenário institucional brasileiro. Conhecido por decisões duras, postura combativa e reação imediata a críticas, Moraes sempre se apresentou como alguém disposto ao enfrentamento, sem hesitação e sem concessões. Para críticos, sua atuação extrapolou os limites da Constituição; para aliados, representou firmeza contra ameaças à democracia. O fato é que, até agora, raramente se viu o ministro recuar.

Nas redes sociais, essa postura acabou gerando apelidos irônicos e críticas mordazes. Muitos passaram a se referir às decisões do magistrado como fruto de uma “lei própria”, apelidada de “a-lei-xandre”, numa alusão ao que consideram uma condução personalíssima do poder. Em praticamente todas as ocasiões em que foi confrontado — seja por políticos, empresários ou comunicadores — Moraes respondeu com rapidez, acionando investigações, autorizando medidas duras e impondo silêncio a adversários.

O histórico recente reforça essa percepção. Quando questionado por figuras poderosas, inclusive empresários bilionários com influência global, Moraes não demonstrou qualquer sinal de intimidação. Pelo contrário, dobrou a aposta, reafirmou decisões e deixou claro que não recuaria diante de pressões externas ou críticas públicas.

No entanto, algo parece ter mudado.

Pela primeira vez, Alexandre de Moraes dá sinais claros de inércia. Diante de uma denúncia pública, direta e documentada feita pela jornalista Malu Gaspar, o ministro não reagiu como de costume. Não houve operação policial, não houve abertura imediata de inquérito, não houve busca e apreensão, tampouco manifestações duras ou ameaças veladas. O silêncio, nesse contexto, tornou-se ensurdecedor.

Malu Gaspar, jornalista experiente e reconhecida nacionalmente, publicou informações que contradizem explicações dadas pelo próprio Moraes em relação às denúncias envolvendo o Banco Master e supostos contatos com o Banco Central. Mais do que apenas relatar fatos, ela desmentiu a versão apresentada pelo ministro, colocando em xeque sua narrativa pública. Ainda assim, nada aconteceu.

Para muitos observadores, esse episódio marca uma ruptura inédita no padrão de comportamento de Moraes. O ministro que sempre reagiu com força total agora permanece imóvel diante de uma crítica frontal. E o detalhe que mais chama atenção entre seus críticos é simbólico: desta vez, o “algoz” não é um político poderoso nem um empresário influente, mas uma jornalista, descrita de forma irônica por comentaristas como “uma mulher franzina, de cerca de 50 quilos”.

A pergunta que ecoa nas redes sociais é inevitável: por que agora Moraes recuou?

No X (antigo Twitter), a ativista Claudia Wild expressou esse sentimento em uma publicação que rapidamente viralizou. Em tom provocativo, ela questionou se a jornalista que teria “divulgado fake news” sobre a suposta pressão de Moraes sobre o presidente do Banco Central seria presa. Perguntou ainda se Malu Gaspar já teria recebido a visita da Polícia Federal ou sido incluída em algum inquérito, numa referência direta ao famoso “Inquérito do Fim do Mundo”.

O questionamento expõe uma contradição evidente. Em outras situações, acusações semelhantes renderam medidas imediatas e severas contra jornalistas, influenciadores e cidadãos comuns. Desta vez, porém, a regra parece não se aplicar. A ausência de reação levanta dúvidas sobre os critérios adotados pelo ministro e reforça a sensação de seletividade.

De onde viria, então, essa “força descomunal” atribuída a Malu Gaspar?

Para analistas, a resposta pode estar na credibilidade profissional da jornalista e no peso institucional do veículo ao qual está ligada. Diferentemente de alvos anteriores, Malu Gaspar possui amplo respaldo na grande imprensa, trânsito internacional e reconhecimento profissional que tornam qualquer retaliação direta politicamente custosa. Uma reação desproporcional poderia gerar ainda mais desgaste para o ministro, ampliando o alcance das denúncias e fortalecendo a narrativa de abuso de poder.

Outro fator relevante é o momento político. Alexandre de Moraes enfrenta, simultaneamente, questionamentos vindos da imprensa, do meio político e da opinião pública. Qualquer movimento em falso pode acelerar debates sobre CPI, impeachment ou limites institucionais do STF. O silêncio, nesse contexto, pode ser uma estratégia defensiva, ainda que contradiga seu histórico.

O fato é que, pela primeira vez, o ministro que sempre avançou parece ter parado. Para críticos, isso é sinal de medo. Para outros, pode ser apenas cálculo político. Seja qual for a explicação, o episódio marca um ponto de inflexão na trajetória de Alexandre de Moraes e reforça uma percepção crescente: quando a denúncia vem de quem tem voz, prestígio e credibilidade, até os mais poderosos pensam duas vezes antes de reagir.

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