Ulysses Guimarães, um dos maiores nomes da política brasileira, costumava dizer que “política é nuvem: você olha e ela está de um jeito; olha de novo e ela já mudou”. A frase nunca pareceu tão atual quanto agora. Em um movimento que surpreendeu até analistas experientes, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, antes tratado como pilar da defesa institucional por setores expressivos da grande imprensa, começa a enfrentar um isolamento visível. O motivo central dessa reviravolta atende pelo nome de escândalo do Banco Master.
Durante anos, Moraes foi retratado como o magistrado firme, implacável contra aquilo que classificava como ameaças à democracia. Suas decisões, muitas delas controversas, receberam amplo respaldo de veículos tradicionais, que enxergavam nelas um freio necessário ao que chamavam de “radicalismos”. No entanto, esse apoio aparentemente incondicional começou a ruir à medida que vieram à tona denúncias envolvendo o Banco Master, uma instituição financeira que entrou em colapso cercada por suspeitas de fraudes bilionárias, má gestão e possíveis conexões políticas.
O caso do Banco Master ganhou destaque após investigações e reportagens apontarem um rombo financeiro de grandes proporções, levantando questionamentos sobre falhas de fiscalização, conivência institucional e eventuais proteções nos bastidores do poder. Embora o nome de Alexandre de Moraes não apareça formalmente como investigado no processo bancário, a revista que revelou os detalhes do escândalo sugere que decisões passadas, alianças políticas e a blindagem midiática construída em torno do ministro podem estar no centro de um desgaste sem precedentes.
O que chama atenção é a mudança abrupta no tom da cobertura jornalística. Veículos que antes exaltavam Moraes passaram a adotar uma postura mais cautelosa — e, em alguns casos, abertamente crítica. Reportagens começaram a questionar excessos, métodos e a concentração de poder nas mãos de um único ministro. Editorialmente, o silêncio deu lugar a análises duras, algo impensável até poucos meses atrás.
Analistas políticos apontam que o escândalo do Banco Master funciona como uma espécie de “gatilho”. Em um ambiente de tensões institucionais acumuladas, qualquer crise de grande impacto financeiro tem potencial para expor rachaduras antes ocultas. A quebra do banco não afetou apenas investidores e correntistas, mas também revelou fragilidades no sistema de controle estatal, levantando dúvidas sobre quem sabia o quê — e quando.
Nesse contexto, Moraes passa a ser visto não mais como intocável, mas como parte de um sistema que começa a ser questionado. Parlamentares da oposição já falam abertamente em apurar responsabilidades mais amplas, incluindo o papel de autoridades que, direta ou indiretamente, teriam contribuído para um ambiente de permissividade. Nos bastidores do Congresso, o clima é de expectativa: muitos avaliam que, se novas informações vierem à tona, o ministro poderá enfrentar um desgaste político capaz de limitar sua influência no STF.
Outro fator decisivo é o cansaço da opinião pública. Pesquisas internas de partidos e institutos indicam que cresce a percepção de que há dois pesos e duas medidas no tratamento dado a diferentes atores políticos. O escândalo bancário, ao envolver cifras bilionárias e impactos econômicos reais, toca em um ponto sensível: o bolso do cidadão comum. Isso torna mais difícil qualquer tentativa de relativizar ou minimizar o problema.
A revista que trouxe o caso à tona sustenta que o “soltar da mão” por parte da grande mídia não é casual. Trata-se, segundo a análise, de um movimento calculado de reposicionamento. Ao perceber que a manutenção do apoio irrestrito pode se tornar um passivo reputacional, setores da imprensa optariam por se distanciar, preservando sua própria credibilidade.
Se esse processo culminará, de fato, na queda de Alexandre de Moraes, ainda é cedo para afirmar. O STF segue sendo uma instituição poderosa, e seus ministros contam com garantias constitucionais robustas. No entanto, na política — como ensinou Ulysses Guimarães — as nuvens mudam rapidamente. O escândalo do Banco Master pode não ser apenas mais um caso financeiro, mas o início de uma virada que redefine alianças, discursos e o equilíbrio de forças no topo do poder brasileiro.
